23 abril 2009

A questão da religião e as intolerâncias

Escrevi a matéria “Espiritismo religião. Pra quê?” e não pára de chegar manifestações a respeito dela. Geralmente essas manifestações ocorrem, durante muito tempo, porque as pessoas retransmitem o meu e-mail, para seus amigos, enquanto outras levam o assunto a debates em casas espíritas, o que proporciona os mais diversificados pontos de vistas.

Em casos normais, eu costumo esperar certo tempo, quando ocorre um número maior de opiniões a respeito, para escrever uma outra matéria, falando sobre a anterior, mas, no caso desta, em razão de algumas reações, acho necessário enviar uma outra, imediatamente, para melhor esclarecimento de algumas pessoas, inclusive alguns leitores amigos.

Recomendação de alguns amigos:

É muito comum alguns amigos me enviarem alertas, mais ou menos assim:

- "Alamar. Você deveria ter muito cuidado com certas coisas que diz. Não sei como você tem tanta coragem em falar desses assuntos. Eu me preocupo com as conseqüências que você deve sofrer. Já vi gente, aqui, por muito menos, ser proibida de falar no centro e até ser jogada, moralmente, contra as pessoas."

Já é um motivo pra gente levantar a voz, posto que não se pode admitir, em hipótese alguma, que no movimento espírita ocorram procedimentos nos moldes da inquisição e tudo, neste sentido, deve ser abolido a qualquer custo. Se as pessoas manifestam esse tipo de preocupação, não é por acaso, é porque elas presenciam esse tipo de prática, a todo momento, em suas cidades, nos centros onde frequentam. Caso contrário, jamais fariam tal recomendação.

Quero tecer considerações iniciais:

A questão da opinião pessoal

Tive o cuidado de, no início da matéria, esclarecer aos leitores acerca do que é opinião pessoal e o que é verdade, deixando muito claro que eu estaria manifestando a minha opinião pessoal, que é um direito sagrado que tenho e que gostaria muito de ser respeitado, da mesma forma que tenho a tradição de respeitar as opiniões de todas as criaturas, relembrando Voltaire, quando nos ensina:

"Posso não concordar com o que tu dizes, mas defenderei, até a morte, o teu direito de dizer o que quiseres".

Se me disponho a formar opinião pessoal, e depois expressá-la, é porque não me conformo em ser um homem ameba, não me admito ser um teleguiado e nem mais uma marionete do mesmismo, submisso a conceitos formados com base no que “todo mundo” diz, sendo obrigado a aceitar as imposições do tipo “porque sim” e “porque não”.

Parto do princípio que, dentro da minha caixa encefálica, deve ter apenas o tipo de substância que forma o cérebro, sem qualquer espaço para um outro tipo de substância que, mais apropriadamente, deve ser deixada no intestino grosso, até que seja expelida.

Portanto, vale lembrar a algumas criaturas, escravizadas pela religião e submissas a elas, que as suas opções de crença e visão são respeitáveis, mas que não insistam em calar pessoas que não pensam necessariamente conforme elas e que não subestimem a inteligência dos outros, ao formarem interpretações malucas e insensatas em cima do pensamento alheio, já que práticas como estas caracterizam-se como leviandade.

Que me desculpem o que pode parecer um auto elogio, mas o que fiz, ao iniciar o artigo esclarecendo a questão da “opinião pessoal”, é algo que só se vê nos escritores, expositores e formadores de opinião seguros de si, não presunçosos, que tem responsabilidade no que dizem e no que escrevem, ao contrário de muitos que existem por aí, inclusive no meio espírita, que tomam da tribuna e colocam coisas, das suas cabeças, como se fossem VERDADES ESPÍRITAS, e, o pior, ainda cobram dos freqüentadores da casa, comportamentos, conforme os seus conceitos pessoais.

Considerações sobre a matéria

É aconselhável que qualquer pessoa, que queira contestar alguma matéria, se dê ao trabalho de, antes de tudo, ler a matéria completa, e, se possível, mais de uma vez, para evitar laborar em mal entendidos.

Em momento algum eu endossei qualquer idéia de retirar Jesus do Espiritismo, de desconsiderar a crença em Deus, de considerar a Prece como prática desnecessária, de desmerecer o “Evangelho, segundo o Espiritismo” e muito menos de retirar o aspecto moral da doutrina.

Só mesmo mentes extremamente intolerantes, pré-conceituosas, precipitadas e até levianas para poder vincular o que eu escrevi, com essas maluquices. A praga do achismo, em nosso meio, é algo lamentável: "Acho que ele está querendo dizer isto", "Acho que ele está querendo dizer aquilo". É triste.

Aliás, esse tipo de postura, altamente repugnante, tem sido constante em nosso movimento espírita, sobretudo no segmento religioso/igrejeiro, como o exemplo do processo de difamação que montaram contra a CEPA (Confederação Espírita Panamericana), com aquela ridícula argumentação de que ela pretende retirar Jesus do Espiritismo, o que é uma mentira deslavada.

O que a CEPA propõe é que o Espiritismo seja disponível, TAMBÉM, para Muçulmanos, Budistas, Judeus e praticantes de todas as religiões, como sempre quis Kardec, e não apenas fique restrito a um rótulo que, por um motivo ou por outro, possa ser preconceituosamente discriminado por alguns bilhões de pessoas.

Qual o mal que há nisso? Como alguém pode ser contra uma proposta tão coerente?

O que fazem muitos dirigentes espíritas, e até grandes instituições, contra a CEPA, nesta onda de difamação, é algo extremamente reprovável, não aceitável nas pessoas comuns, quanto mais em outras que se dizem representantes de uma doutrina, como o Espiritismo, que o mínimo que deveriam ter era vergonha na cara.

Eu apenas questionei:

Por que o Espiritismo tem que ser religião?

Por que muitas criaturas são tão dependentes de religião?

Aí, aparecem aquelas argumentações de que Espiritismo sem o aspecto religioso é frio, não tem amor, não tem Jesus, não tem Evangelho, não tem perdão, caridade, fraternidade, indulgência, humildade, crença em Deus... etc...

Mas que coisa mais maluca, em acharem que esses valores só podem ser praticados com o rótulo religioso.

Quer dizer, então, que, se encontrarmos um cidadão que é honesto, digno, carinhoso, caridoso, excelente filho, excelente marido, excelente pai, consciente dos seus deveres, com histórico de vida dedicado ao próximo, consciente de que só deve fazer ao seu próximo o que gostaria que lhe fizessem, absolutamente sintonizado com o modelo Jesus, mas, ao lhe perguntarmos qual a sua religião, ouvíssemos a resposta: “eu não tenho religião”, deveríamos levá-lo à fogueira, sob a insana concepção de que é impossível alguém, que não tenha religião, viver valores elevados?

Será que a nossa mediocridade é capaz de tal coisa?

Há quem argumente que quem não admite a rotulação religiosa do Espiritismo, necessariamente é Ateu.

Que diabo de conceituação mais maluca! Lembro John Heywood, quando diz o contrário disto: "Quanto mais perto da igreja, tanto mais longe de Deus".

Deixei claro em meu artigo uma realidade: A palavra RELIGIÃO significa RE-LIGAÇÃO, e qualquer tentativa em desconhecer isto é sofisma. Ao longo dos séculos, já que o poder da religião sempre foi muito grande, inclusive em épocas que ela era comandada pelos imperadores e até pelas cortezãs, todo tipo de manipulação foi feita, até mesmo junto a alguns autores de dicionários, para tentar dar-lhe um outro sentido, daí alguns espíritas virem com essa conversa de que religião significa “ligação” com Deus, e nós espíritas devemos, sim, viver ligados a Deus.

Isto é apelação!!! LIGAR é uma coisa, RE-LIGAR é outra.

Eu também concordo que todos nós espíritas devemos nos ligar a Deus, a Jesus, aos Bons Espíritos e não tem como a gente discutir isto.

É bom lembrar que muitos dos dicionários, citados por alguns espíritas, também definem o Espiritismo como bruxaria, feitiçaria e até necromancia. Nós temos que aceitar?

Competições entre segmentos espíritas

Vejam só, esta outra maluquice.

X
X
X

Inventaram, no meio espírita, que existe uns tais de cientificistas, que querem considerar o Espiritismo, apenas, como ciência e filosofia, e os colocam em oposição com outros grupos, que talvez fossem os “religiosistas”, estabelecendo um verdadeiro Vasco e Flamengo ou Corinthians e Palmeiras, nesta história, do mesmo jeito que os conhecidos Chiquistas (fanáticos pelo Chico Xavier), dos anos sessenta, resolveram conceber o Divaldo como opositor do médium mineiro, chegando a ponto de caluniá-lo, difamá-lo e fazer de tudo para destruir a sua imagem, jogando um contra o outro.

Estão criando agora os adversários: religiosistas e cientificistas.

Uma tremenda bobagem, sem o menor sentido.

Isto é uma vergonha e só espíritas muito irracionais são capazes de tomar partidos, desta forma.

Não existe cientificista nenhum, no meio espírita; o que existem são companheiros que consideram, TAMBÉM, o aspecto científico da doutrina, coisa que não é considerada por aqueles que vêem o Espiritismo apenas como prática de rezação e de igreja.

Um companheiro, talvez por incapacidade de criar algo útil, criou uma idéia que costuma dizer, a meu respeito, o seguinte:

- “O Alamar, depois que se mudou para São Paulo, de tanto freqüentar o centro do Sérgio Felipe, entrou nessa onda de cientificista também e não considera mais o espiritismo como religião”.

Quanta insanidade. O cara chutou feio.

Em princípio, o Sérgio Felipe é um dos maiores defensores do aspecto religioso do Espiritismo, ele gosta de, também, ver o Espiritismo como religião e, em que pese na sua Clínica/Centro Espírita ter muita prática Espírita/Científica, todos os seus freqüentadores observam claramente as práticas que são lidas como religiosas, como o fervor das preces, a necessidade da Fé e tantas coisas dessa natureza que o brilhante cientista ensina a todos, com toda humildade.

A mesma intolerância é verificada em relação à Dora Incontri, que muitos a acusam de querer tirar Jesus do Espiritismo, quando a idéia dela não é nada disto. Ela simplesmente sugere que as pessoas vejam o centro espírita como ESCOLA e não como IGREJA, e eu concordo. Ela, por ser educadora, doutora no campo educacional, sugere práticas espíritas mais educativas, mais estudos gerais, mais conhecimento, enfim.

E educação também esclarece, consola, alivia, conforta e ilumina.

Mas eu sei porque muita gente é contra as propostas de que as pessoas comuns devam ser educadas, esclarecidas, informadas da necessidade de abrirem as suas mentes. É porque é muito mais fácil manipular o ignorante, coisa que os religiosos, assim como os políticos, adoram.

Aí ficam com aquela conversa besta de que não devemos questionar certas coisas. Ora, que vão caçar o que fazer. Só acéfalos aceitam esses "ensinamentos" malucos de que não devemos questionar "certas coisas". Eu questiono, sim, tudo. Se estivesse diante de Deus, uma coisa eu iria questionar a ele: "Senhor, por que o Senhor fez o abacate com um caroço tão grande? Não dava pra fazer menorzinho não?". Cabe na cabeça de quem, que o Criador ficaria aborrecido comigo, por causa da pergunta?

Lideranças religiosas, assim como políticas, não suportam pessoas que questionam.

Raciocinemos:

Se eu “tenho” um centro espírita, com mais de 1000 freqüentadores, onde eu mando, eu sou o líder de todo mundo, eu dou as ordens, eu me acho no direito até de dizer às pessoas como elas devem se vestir, como devem investir os seus dinheiros, como devem se comportar e as lidero, conforme as minhas conveniências, é natural que reajo contra qualquer outro espírita que venha a instruir esse povo e, principalmente, contra aqueles que venham a sugeri-lo ter opinião própria e a aprender a raciocinar com sua própria cabeça.

Eu não vou querer perder as vaquinhas do meu curral, gente!!!! Para muitos líderes religiosos, os fiéis da sua denominação nada mais é do que gado.

A grande reação ao Alamar, começou daí.

Vejam só:

Anteriormente, as pessoas só viam informações sobre Espiritismo no “meu” centro espírita, onde só falava eu e as pessoas que rezavam conforme a minha cartilha. Qualquer jornalzinho ou revista espírita que aparecesse por lá, e que não era conforme o que eu queria, era proibida de circular. Palestrantes que não estavam comigo, eram proibidos de falar, livros que eu não aprovava eram censurados e não vendiam em minha livraria, eu proibia as pessoas de freqüentar outros centros, sob ameaça de processos obsessivos...

De repente aparece esse maluco do Alamar, entrando pela antena parabólica nas casas das pessoas, do Brasil inteiro, mostrando cabeças notáveis com Djalma Motta Argollo, Adenauer Marcos, André Luiz Peixinho, Ruth Brasil Mesquita, Carlos Bernardo Loureiro e um monte de “feras”, mostrando um espiritismo racional, coerente, sensato, sem proibições e sem obrigações. Ao mesmo tempo, esse doido lança uma revista que as pessoas poderiam comprar em qualquer banca do Brasil, tudo isto fora do meu controle e fora das lâminas da minha guilhotina.

O que eu posso fazer?

É inevitável que o “meu” público vai tomar conhecimento dessas instruções e isto será altamente prejudicial aos meus interesses, porque vão perceber que o Espiritismo não é bem essa seitazinha que eu pratico aqui.

O que eu tenho que fazer???????

Difamar o Alamar, uai. Tenho que dizer que ele não sabe nada de Espiritismo, que é obsediado, picareta, que dá desfalques, que faz isto e que faz aquilo, se possível dizer que ele esteve envolvido com o Bin Laden na destruição das torres gêmeas... enfim, eu tenho que defender os MEUS interesses, a qualquer custo!!!!!

É o que acontece, no ambiente RELIGIOSO espírita.

É óbvio que os procedimentos indecentes e imorais não acontecem apenas no meio religioso, já que estão presentes também nos ambientes políticos, empresariais, comerciais, enfim, na sociedade em geral; mas que no ambiente religioso ele acontece com toda intensidade, EM TODAS AS ÉPOCAS DA HUMANIDADE, disto você não tenha a menor dúvida.

Basta ter a curiosidade de ler, atentamente, inúmeros livros maravilhosos que retratam a história das religiões, no mundo. Recomendo um livro do meu querido amigo, José Reis Chaves, lá de Belo Horizonte, Teólogo Católico que virou espírita, e que, entre vários livros excelentes, escreveu “A Face Oculta das Religiões”. (este livro está inclusive a venda em nosso site: www.redevisao.net). Vejam o que ele diz lá e saiba, com certeza, que ele não inventou nada, apenas retratou REALIDADES.

Alguns, para colocarem algum quê de credibilidade na religião, citam Dom Hélder, Irmã Dulce, Madre Tereza de Calcutá e vários nomes verdadeiramente notáveis, que foram religiosos. A própria Joanna de Ângelis, Emmanuel e vários outros trabalhadores espirituais, que foram religiosos dignos em várias encarnações.

Ora. Também pudera, se não tivesse ninguém que prestasse, em toda a sua história.

Existem gerentes de bancos que são dignos, apesar de gerirem os bancos, os maiores ladrões do país.

Para concluir

Sou espírita, sim, e procuro estar coerente com Kardec, o máximo que posso, inclusive tendo prestado atenção na questão que diz que JESUS É O MAIOR MODELO E GUIA QUE TEMOS A SEGUIR.

Lancei o livro "Espiritismo, o Consolador Prometido", excelente obra de autoria de Djalma Motta Argollo, com argumentações lúcidas e coerentes, em demonstrar que, de fato, a nossa doutrina é o Consolador, prometido por Jesus. Mas repito a pergunta que fiz na matéria anterior: O que Jesus tem a ver com religião? Por que temos sempre que vincular a idéia Jesus com religião?

Pratico reunião do “Evangelho no Lar”, em minha casa, com prece e tudo. Só que não pratico o igrejismo de sempre abrir o livro no meio, (ao "acaso") como muitos fazem, caindo sempre nos mesmos assuntos, e ainda viver a enganar a mim mesmo, sob a argumentação de que foram os Espíritos que quiseram que o livro abrisse naquele lugar. Mentira, quem faz abrir naquele lugar é a forma ritual como muita gente faz o Espiritismo. Nós procuramos estudar, capítulo a capítulo, desde a introdução, com cada membro da família comentando e discernindo em cima do assunto estudado.

Aprecio o notável Carlos Imbassahy, também... Só não o vejo como São Carlos Imbassahy. Adoro o respeitadíssimo Herculano Pires, inclusive uma das minhas queridas amigas, que sempre retorna os meus e-mails, é a sua filha, Heloísa Pires, tão admirável quanto ele, porque é uma das mais extraordinárias Mestras e Expositoras espíritas do mundo.

Adoro Deolindo Amorim, Hermínio Miranda e todos esses notáveis da história do Espiritismo, mas também adoro os Gigantescos Hernani Guimarães Andrade e Henrique Rodrigues.

Imbassahy emitiu as opiniões dele, Deolindo também, Emmanuel também, Herculano também... Paulo de Tarso também teve opiniões, nem sempre coerentes com Jesus, como aquela bobagem que ele disse, que mulher não tem direito nem de abrir a boca. Eu vou deixar de gostar dele, por causa disso?

Tenho a maior afinidade com o meu amigo Divaldo Franco, o Di, querido, com quem troco e-mails sempre, simpatia e amizade que é recíproca, porém ele é também simpatizante da idéia Espiritismo Religião. E daí? Qual o problema?

Medrado é outro que não abre mão da concepção Espiritismo Religião. No entanto, temos uma afinidade enorme.

O objetivo da matéria foi apenas questionar, como opinião pessoal, que utilidade tem para o Espiritismo ser religião?

Você pode ver uma utilidade enorme, talvez até a sua razão de existir, mas eu, sinceramente, não vejo nenhuma.

Afinal, somos Evolucionistas, baseados em Darwin, ou Criacionistas, baseados em Adão, Eva e a Cobra?

Se estamos inseridos no segundo caso, temos necessidade de re-ligarmos mesmo, talvez devolvendo a maça que foi comida, sem autorização do Homem.

Centro Espírita deve ser ESCOLA e não IGREJA.

Abração, Gente!

Alamar Régis Carvalho

alamar@redevisao.net

www.redevisao.net

19 abril 2009

Espiritismo religião. Pra quê?

Tenho visto discussões sobre este assunto, desde os primeiros tempos que entrei no Espiritismo, e gostaria de tecer algumas considerações, neste artigo.

Em princípio eu vejo esta como mais uma das discussões inúteis, que ocorrem em nosso movimento, todavia, considerando que muitos dos meus leitores me pedem uma opinião sobre o assunto, aqui estou.

Mas, inicialmente, quero que algo fique bem claro, ao meu leitor, aquele universo de pessoas que gostam de mim: Existem coisas que são verdades e outras que são opiniões pessoais do Alamar.

É bom repetir isto, de vez em quando, posto que tem muita gente aí fazendo coisas, tiradas das suas cabeças, porém colocando-as para o público como se fosse verdade espírita. Ocorre muito em alguns centros espíritas, aqueles que eu identifico como praticantes do “Espiritismo, à moda da casa”.

É-nos facultado o direito de emitir opiniões e até de colocar os nossos achismos, sim, sem problema nenhum. O perigo é a presunção de colocarmos as opiniões e, principalmente, os achismos como verdades, já que aí está um grande problema.

Eu vou escrever, sim, sobre esta questão do Espiritismo ser ou não ser religião, emitindo a minha opinião, e tudo farei para ser o máximo possível racional, para que você tire a sua conclusão.

Comecemos com algumas perguntas:

Por que o Espiritismo tem que ser religião?

Qual a vantagem que a nossa Doutrina leva, em ser considerada uma religião?

Teremos algum acréscimo virtuoso, por conta desse rótulo?

O fato de ser considerada religião, dará ao Espiritismo alguma credibilidade especial, honra e respeito?

Ele passará a ter algum valor, maior do que já tem, pelo fato de ser considerado religião?

E se não for considerado religião, a sua valorização ficará comprometida, de alguma forma?

Do ponto de vista moral, esse rótulo leva a ele algum mérito especial?

E do ponto de vista, espiritual, o que altera em ser ou não ser religião?

Eu já me fiz estas perguntas várias vezes e não encontrei nenhuma resposta relevante, que pudesse justificar isto que muitos espíritas dão tanto valor.

Tenho a impressão de que muita gente vê o Divaldo, como nesta foto aí ao lado.

Alguns argumentam:

- “Esses que não consideram o Espiritismo como religião, certamente são os que querem retirar Jesus do Espiritismo”.

Mentira, não tem nada uma coisa a ver com outra. Argumentação extremamente idiota e uma tremenda bobagem.

Senão, questionemos:

Quem foi que determinou que o nome de Jesus, o respeito a Jesus e sobretudo a prática do comportamento conforme Jesus sugeriu, necessariamente, só pode ocorrer no ambiente religioso?

Pelo fato do mercado religioso ter se apoderado, indevidamente, do nome dele para servir como uma espécie de base para as suas rotulações, necessariamente temos que vincular o Espiritismo, também, com religião?

Gente! Jesus nunca pregou religião nenhuma, nunca mandou ninguém ser religioso, nunca mandou ninguém praticar ritual nenhum e muito menos obrigações. O que ele pregou foi o amor entre as criaturas.

Essa história de dizerem que determinados confrades querem retirar Jesus do Espiritismo, é de uma pobreza e fragilidade, sem tamanho, pois, só mesmo gente muito irracional para propor retirar da nossa doutrina, aquele ser que os Espíritos da Codificação nos indicaram como sendo o Maior Modelo e Guia, que devemos seguir.

Mas os argumentadores, favoráveis ao religiozismo espírita, também afirmam:

- “O Espiritismo sem o seu aspecto religioso, perde a sua força moral, o sentimento da Caridade, da Beneficência, da tolerância, da humildade... e do amor ao próximo”.

Ora bolas, pergunto mais uma vez:

O que é que determina que conduta moral só é fator de relevância, dentro da religião? Quem foi que disse que não se pode praticar Caridade, Beneficência, Indulgência, Tolerância, Humildade, Respeito e Amor ao Próximo fora da rotulação religiosa?

Será que eu não posso amar ao meu próximo, como a mim mesmo, sem religião?

Será que eu não posso adquirir a consciência de que só devo fazer ao meu próximo o que gostaria que fizessem comigo, sem religião?

Conheci um homem, chamado Raimundo Jinkings, em Belém do Pará. Ele era um dos homens mais dignos, honrados, honesto, trabalhador, decente e possuidor de um coração enorme, que já conheci, mas era ateu. Foi a minha primeira convivência mais próxima como um ateu, porque eu tinha muita curiosidade em saber como eles eram, já que fui criado com a absurda cultura de que todo ateu, necessariamente, era servo do tal satanás, pessoa má, bandida, terrorista e bem bandida. Não vi nada disto nele e em vários outros ateus que conheci depois. É claro que tem ateu safado, também.

Será que todo o seu histórico de vida, numa conduta proba, digna e honesta não valeu nada, só porque teve ele o rótulo de ateu e não estava inserido no tal universo chamado cristão?

Gente, até o nome do próprio Deus, o Criador, a religião se apropriou, indevidamente. Chegaram a ponto de inventar a Teologia, uma matéria que não é única como a Física, a Matemática e outras exatas, visto que o seu conteúdo existe conforme a conveniência da religião que ministra o curso.



A matéria Teologia chega a ser ridícula. É formada conforme as conveniências da igreja que a ministra. O pessoal da igreja Universal, por exemplo, estuda Deus, conforme a cabeça do Edir Macedo.

Por exemplo: A igreja do Edir Macedo ministra um curso de Teologia, para os seus pastores, bispos e alguns obreiros, com diploma e tudo. Só que é uma teologia que define Deus, conforme a cabeça do Edir Macedo, atendendo a convicção dele, que acha moral um líder religioso se tornar bilionário, à custa da oferta do pobre que não tem dinheiro nem para as necessidades básicas da família. O R. R. Soares, também, está ministrando curso de teologia, na faculdade que o seu milionário dinheiro construiu; mas com uma definição de Deus, conforme a sua cabeça, que é bem diferente da do Edir Macedo, visto que eles não se suportam.

Já a igreja Católica, também, tem a sua Teologia; mas conforme as suas conveniências, definindo Deus conforme aquilo que está na Bíblia, no Antigo Testamento, de acordo com a visão do Vaticano.

Não é uma matéria como a Física, que é única, em que Isaac Newton é um só, assim como Kepler, Lavoisier, Blaise Pascal, Coulomb, Thomas Alva Edson... e vários outros. Espaço é igual a velocidade vezes tempo, em qualquer lugar do mundo, onde ensina Física. Não teria como o Alamar inventar que espaço é igual ao dobro da velocidade dividido pela raiz quadrada do tempo.

Portanto, em religião não há coerência, em Espiritismo há.

Partamos de outro princípio, que é base para qualquer pessoa tirar conclusão lógica sobre isto:

A palavra RELIGIÃO significa RE-LIGAÇÃO.

Bom, se é re-ligação, há se perguntar: Religar quem, a quê?

A idéia RELIGIÃO foi inventada com base na estória de Adão, Eva e a Cobra que, segundo os adeptos do Criacionismo, o homem se desligou de Deus, a partir do pecado do casal, com aquela conversa do fruto proibido.

Falar nisto, você já percebeu que Deus mais miserável e insensato aquele, do Velho Testamento? Como é que o Velho pode se aborrecer tanto, por causa de uma maçã, ou seja lá qual tenha sido o fruto, a ponto de castigar a humanidade por toda a eternidade? Aqui perto de casa vende uns cestinhos, com 6 maçãs, por 5 reais.

Pois bem:

Já que houve o tal desligamento, precisaria de alguma coisa para proporcionar a religação, daí o surgimento da coisa chamada RELIGIÃO.

Partindo do princípio que o Espiritismo não endossa o Criacionismo, não tem nada a ver com a infantil estória de Adão, Eva e a Cobra, posto que tem a sua base no Evolucionismo; que diabo de religação é essa que os espíritas, também, têm que estar sujeitos, se eles não se desligaram de nada?

Se você chega em casa, do seu trabalho, à noite, e já encontra a luz da sala ligada, terá alguma possibilidade de religar aquela luz?

Como poderá ligar, se ela não está desligada e sim ligada?

Para quê, o espírita precisa de religião, gente? Pra ligar o quê?

Recorramos, agora, a outro argumento:

Certa ocasião, num debate, ao ser perguntado se o Espiritismo era religião, o próprio Allan Kardec deixou claro que ele não veio ao mundo com a proposta de ser religião, muito pelo contrário, veio se colocar como um instrumento para ser utilizado pela ciência e pelas religiões, mas que a intolerância religiosa fez com que ele fosse visto, pelo povo, como religião e muita gente passou a praticá-lo como religião.

Em outras obras, em épocas mais para frente, o próprio Kardec, talvez pressionado pelo público (que adora ter religião), começou a falar no tal tríplice aspecto, mas originalmente, assim que o Espiritismo foi lançado ao mundo, ele não era religião.

Religião, ao contrário de ser sintonia com Deus, nada mais é do que intolerância, proibições, obrigações, patrulhamento da vida das pessoas, submissão, exigências de obediências a dogmas, inclusive no movimento espírita, formação de sacerdócio organizado (no movimento espírita não existe a figura do Cardeal, do Bispo e dos Padres, que dão as ordens ao povo, mas existe algo, com outro nome, que são os Membros da Diretoria da Casa, os Conselhos, que fazem exatamente a mesma coisa: Dão ordens, proíbem, censuram, boicotam, sabotam, levam expositores ao “index librorum prohibitorum”, jogam a imagem de confrades de encontro a todos os outros, portanto, qual a diferença?), tem os seus rituais, sim (Todos em silêncio, vamos à prece de abertura, depois a palestra, depois a prece de encerramento para agradecer à Jesus, depois o passe, depois a água fluidificada...), e ai de quem se atreva a querer mudar isto.

O centro espírita é, por muitos, considerado a "casa de Deus", quando esses proíbem as pessoas de sorrir, de ficarem alegres, tem que falar baixo, dizem que "o silêncio é uma prece" (desde quando, silêncio é prece?), cheio de "psiu" em tudo quanto é canto, se um casal chega abraçado, mandam que desabracem, sob a argumentação de que ali é "casa de respeito" (desde quando um abraço é manifestação de desrespeito?)... enfim, a postura e a máscara religiosa é coisa intragável, chata, insensata e inadmissível às pessoas que raciocinam.

Nós podemos, sim, fazer preces, nos sintonizar com Deus, com Jesus, com a Espiritualidade Maior e até com nossos irmãos desencarnados, recebendo e enviando energias de amor, sem necessariamente sermos religiosos.

Você, que freqüenta centro, deve saber que em vários deles alguns expositores são PROIBIDOS de fazer palestra lá.

O que é essa proibição? A manifestação do aspecto religioso.

Mas proíbem, por quê?

Porque o expositor é bandido, costuma ensinar os freqüentadores do centro a fumar maconha, cheirar cocaína, dar golpe nos outros ou se comportar com conduta moral comprometida?

Não, nada disto. É proibido simplesmente porque não pensa, exatamente, conforme a cabeça do “dono” da casa. Isto é religião.

Os meus artigos, por exemplo, são proibidíssimos até de ser comentados, em alguns centros espíritas, por conta desta minha “teimosia” em orientar as pessoas para raciocinarem, não se deixarem ser vaquinhas de presépio de nenhum “cardeal” de centro espírita, exercer os seus direitos de discordar, de questionar e de abrir a boca.

Isto incomoda, gente!!! Mas, incomoda por quê? Porque esta é a característica da religião, há séculos e séculos.



Se alguém sugerisse a retirada do aspecto MORAL do Espiritismo, aí sim, seria um tremendo absurdo, uma insanidade, porque descaracterizaria totalmente a Doutrina, já que a sua proposta básica é a transformação do ser, para melhor.

Mas eu falei, no início do artigo, que existem coisas que são VERDADES e coisas que são apenas opinião pessoal do escritor ou expositor.

Pois bem: Diante disto, vou fazer uma proposta, convidando VOCÊ MESMO a fazer a checagem. Embora eu saiba o que você vai encontrar e vai comprovar, não vou adiantar nada aqui, para não dizerem que influenciei o meu leitor.

Já que, com certeza, você conhece os espíritas da sua cidade, ou talvez do seu estado, sabendo, pela observação, que existe gente tranqüila, gente calma, carinhosa, afetuosa, humilde e bondosa e com REAIS VALORES ESPIRITUAIS ELEVADOS, do mesmo jeito que existem, também, as pessoas chatas, inconvenientes, autoritárias, que adoram se meter na vida dos outros, metidas a dar ordens, a apontar dedo para a cara dos outros, no que chamo de CONFRADES PERTURBADOS, faça o seguinte:

Comece a fazer uma verificação, anotando num caderninho, em qual dos dois segmentos, no espírita religioso e no espírita não religioso, onde é que você vai encontrar mais confrades perturbados, do tipo que patrulha, proíbe, obriga, faz fofoca, intriga, censura, crítica, etc...

É impressionante, o que você vai ver. Você vai encontrar, em nosso movimento, pessoas que se ocupam, integralmente, numa interminável guerra contra obras, como as de Roustaing, Pietro Ubaldi e outras, chegando a ponto de odiarem os adeptos dessas obras. Não estou falando apenas no direito que todo mundo tem em discordar das obras, estou falando em ÓDIO, contra as obras. Veja a qual segmento esse pessoal pertence.

Pronto, a partir daí você vai tirar a sua conclusão se o que o Alamar colocou aqui, é uma simples opinião sua, sem base nenhuma, ou se é algo que de fato tenha fundamento.

Quem é que vai querer ter a audácia de questionar a sua inteligência e dizer que você não viu o que viu?

Respeitemos, sem dúvida, o direito dos confrades e amigos de gostar de religião, de igreja, do ritual da rezação, do “o silêncio é uma prece”, do “muita paz, meu irmão”, do “estou melhor do que mereço”, do “eu adoro sofrer, porque sofrer evolui”, etc... Se, de repente, aparecer algum dirigente aí que resolva instituir a hóstia fluídica, em seu centro, que Deus o abençoe, e que os seus freqüentadores comunguem em paz, absorvendo o “cordeiro de Deus”. Mas que temos o sagrado direito de opinião, isto ninguém tenha menor dúvida, e temos que exercê-lo.





Abração, Gente!



Alamar Régis Carvalho

alamar@redevisao.net

www.redevisao.net